segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Onde estão os maleteiros?


Há alguns anos, quem visitava as feiras livres sempre se deparava com um homem, geralmente de meia idade, com sua maleta no chão, expondo os mais variados cordéis para venda, venda essa que era fortalecida pela forma que eles atraiam os futuros leitores, “cantando” uma parte do cordel e aguçando a curiosidade dos presentes em saber o final da história, fazendo com que eles fossem quase que obrigados a comprar o folheto e descobrir o desenrolar do enredo. Receita infalível!

Hoje, é quase impossível encontrar esse personagem, ou melhor, é quase impossível encontrar um cordel à venda nas feiras ou em qualquer outro lugar. Quando vemos, são em bancas de revistas, ali, num carinho, quase que imperceptível aos olhos dos transeuntes.

Ainda encontramos cordéis nos eventos de poesias, onde os próprios poetas expõem seu trabalho ao público e, de certa forma, conseguem manter viva a alma do maleteiro, se bem que os maleteiros modernos, nem maletas têm.

A causa da extinção do maleteiro raiz é assunto amplo. Uns dizem que a internet os matou, outros dizem que o folheto de cordel (não a poesia de cordel, falo apenas do livreto de papel em si) está quase que descartável, por isso que muitos dos poetas, como é o caso do grande mestre Antônio Francisco, prefere selecionar algumas histórias e publicar um livro como coletânea, ao invés de vários cordéis.

Independente do motivo, uma coisa não há de se negar: a extinção dos maleteiros levou consigo um pouco da magia e da riqueza de nosso cordel.

Tiago Monteiro
Poeta, cordelista e produtor cultural.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Para que servem as academias literárias?


Dificilmente um escritor não ficaria feliz em ser indicado para se tornar imortal na Academia Brasileira de Letras, pois lá, teoricamente, estão os grandes escritores brasileiros ocupando cadeiras apadrinhadas com outros também grandes escritores.

Assim como se banaliza tudo no Brasil, as academias literárias também foram banalizadas. Todos os dias encontramos na redes sociais uma página da Academia de Letras não de onde, da Academia Virtual não se de quê, da Academia de Cordel não sei das tantas... que diariamente recebem novos indicados para compor seus quadros de “imortais”.

Perdeu-se com isso um pouco do encantamento de figurar nos quadros de uma Academia Literária, pois hoje as indicações visam, em muitos dos casos, apenas mais alguém pra pagar a anuidade da instituição, onde muitas das vezes as escolhas não se dão com o critério que deveriam.

É bem verdade que a qualidade dos escritos está no campo da subjetividade, o que pode ser um bom romance pra mim, pode ser fraco pra outra pessoa, o que parece que tem muita poesia pra cicrano, pra beltrano pode ser apenas um emaranhado de versos ruins, enfim... não nos cabe julgar, o que nos cabe é buscar entender para que, afinal, servem essas academias?

Serviriam elas apenas de status? Seria apenas mais um título para que os escritores possam exibir orgulhosos e se sentirem melhores que os outros? Não deveriam as academias se preocuparem com o fomento à leitura, principalmente nas escolas? E as academias de cordel, não deveriam se preocupar também na formação de novos cordelistas, assim como na pesquisa acerca da literatura de cordel, ao invés de buscarem apenas palcos?

São tantas as perguntas que esse “imortal” aqui não consegue encontrar respostas. A única certeza que tenho é que nesses dias teremos mais imortais que gente de carne e osso.

Tiago Monteiro
Poeta, cordelista e produtor cultural

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Não banalizem o cordel


Foi só a TV Globo dar ênfase ao cordel através das aparições semanais de Bráulio Bessa no programa Encontro, que é comum encontrarmos “cordelistas” por todos os lados. Isso é bom? Em certa parte sim.

O grande problema é que muitos desses poetas que se dizem cordelistas não sabem que todo cordelista é poeta, mas nem todo poeta é cordelista, pois não é só colocar alguns versos sem critério nenhum em um folheto com formato de cordel para se tornar um cordel, pois diferente dos outros tipos de poesia, o cordel tem uma série de regras rígidas que devem ser obedecidas, tendo como alicerce três itens básicos: A rima, a métrica e a oração.

Ao falarmos em rima no cordel, é importante saber que existem também algumas regrinhas básicas, como por exemplo, não se rima singular com plural, as rimas devem ser consonantes, isso quer dizer que a correspondência dos sons devem ser completa, como por exemplo as palavras “aposta” e “resposta”, notem que além das letras a partir da sílaba tônica ser igual, o som também é, diferente de “apareceu” e “céu”, que apesar de acabaram com as mesmas vogais, o som é diferente. As palavras “doente” com “entende” podem até rimar na música que dia “Seu polícia é que eu separei recentemente”, mas pra o cordel elas não rimam.

Em se tratando de métrica, o cordel também é muito rígido, ele exige uma quantidade de sílabas poéticas em cada verso a depender do estio do cordel, tendo os mais comuns, versos setissílabos e decassílabos, isso quer dizer com sete ou dez sílabas poéticas. Contagem essa que tem que ser feita levando em consideração a tonicidade das palavras, o que deixa essa contagem um pouco mais complicada.

Vocês já ouviram o termo “Que coisa sem pé e sem cabeça”? Pois bem, isso é o que se diz de um cordel sem oração, que é o sentido lógico da história. Vejo muitos poetas soltado estrofes nas redes sociais que até rimam, estão na métrica, mas não têm oração, como por exemplo:

É importante buscar
A rima pra poesia
Esta noite eu vi a lua
Toda cheia de alegria
Comecei beber de tarde
Só parei no outro dia.

Essa estrofe tem a rima, tem a métrica, mas não tem lógica nenhuma, falta justamente um dos itens básicos da poesia: a oração.

Portanto, companheiros, para ser um cordelista, não basta apenas ter um folheto publicado, este folheto precisa respeitar as regras básicas do cordel, pois senão será apenas mais uma poesia livre, essa sim, não precisa obedecer as regras impostas ao cordel.

Pra ser poeta, basta ter inspiração, mas pra ser cordelista, não, pra ser cordelista tem que se sujeitar às regras e princípios básicos, caso contrário, será apenas mais um pé-quebrado espalhado no meio do mundo.

Tiago Monteiro
Poeta, cordelista e produtor cultural.