segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Não banalizem o cordel


Foi só a TV Globo dar ênfase ao cordel através das aparições semanais de Bráulio Bessa no programa Encontro, que é comum encontrarmos “cordelistas” por todos os lados. Isso é bom? Em certa parte sim.

O grande problema é que muitos desses poetas que se dizem cordelistas não sabem que todo cordelista é poeta, mas nem todo poeta é cordelista, pois não é só colocar alguns versos sem critério nenhum em um folheto com formato de cordel para se tornar um cordel, pois diferente dos outros tipos de poesia, o cordel tem uma série de regras rígidas que devem ser obedecidas, tendo como alicerce três itens básicos: A rima, a métrica e a oração.

Ao falarmos em rima no cordel, é importante saber que existem também algumas regrinhas básicas, como por exemplo, não se rima singular com plural, as rimas devem ser consonantes, isso quer dizer que a correspondência dos sons devem ser completa, como por exemplo as palavras “aposta” e “resposta”, notem que além das letras a partir da sílaba tônica ser igual, o som também é, diferente de “apareceu” e “céu”, que apesar de acabaram com as mesmas vogais, o som é diferente. As palavras “doente” com “entende” podem até rimar na música que dia “Seu polícia é que eu separei recentemente”, mas pra o cordel elas não rimam.

Em se tratando de métrica, o cordel também é muito rígido, ele exige uma quantidade de sílabas poéticas em cada verso a depender do estio do cordel, tendo os mais comuns, versos setissílabos e decassílabos, isso quer dizer com sete ou dez sílabas poéticas. Contagem essa que tem que ser feita levando em consideração a tonicidade das palavras, o que deixa essa contagem um pouco mais complicada.

Vocês já ouviram o termo “Que coisa sem pé e sem cabeça”? Pois bem, isso é o que se diz de um cordel sem oração, que é o sentido lógico da história. Vejo muitos poetas soltado estrofes nas redes sociais que até rimam, estão na métrica, mas não têm oração, como por exemplo:

É importante buscar
A rima pra poesia
Esta noite eu vi a lua
Toda cheia de alegria
Comecei beber de tarde
Só parei no outro dia.

Essa estrofe tem a rima, tem a métrica, mas não tem lógica nenhuma, falta justamente um dos itens básicos da poesia: a oração.

Portanto, companheiros, para ser um cordelista, não basta apenas ter um folheto publicado, este folheto precisa respeitar as regras básicas do cordel, pois senão será apenas mais uma poesia livre, essa sim, não precisa obedecer as regras impostas ao cordel.

Pra ser poeta, basta ter inspiração, mas pra ser cordelista, não, pra ser cordelista tem que se sujeitar às regras e princípios básicos, caso contrário, será apenas mais um pé-quebrado espalhado no meio do mundo.

Tiago Monteiro
Poeta, cordelista e produtor cultural.

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